Os Dons Espirituais e a Grande Comissão

Seria a pregação do evangelho, responsabilidade exclusiva de quem tem certos dons relacionados com a obra de evangelização? O pastor, o evangelista, o professor, o pregador, o obreiro bíblico deveriam dividir entre eles toda a tarefa descrita na grande comissão (Mt 28:18-20; Mc 16:15,16; Jo 20:21; Lc 24:44-49) de ir, fazer discípulos e pregar o evangelho?

Todos devem saber que uma clara ordem de Deus para cada cristão é: “Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério.” (1Tm 4:14). Isto significa que “Deus deseja que cada membro da igreja trabalhe como se fosse Sua mão ajudadora, buscando, mediante ministério de amor, ganhar almas para Cristo”.
Quando todo o arcabouço dos dons espirituais manifestos em uma igreja é analisado percebe-se uma convergência natural em direção aos ministérios relacionados com a obra de evangelismo, a pregação e a conclusão da grande comissão dada por Cristo (Mt 28.19, 20). Isso se dá porque do ponto de vista de Deus e no contexto do plano da redenção alcançar o mundo com a mensagem do evangelho e prepará-lo para o encontro com o Cristo vindouro é prioridade máxima em Seus propósitos com este planeta.
Sendo assim, os dons espirituais bem como todas as estruturas, estratégias e instrumentos de mobilização da igreja devem apoiar este objetivo final, se ela se sente responsável pela conclusão da obra.
O chamado para evangelizar é para todos. Na igreja do Novo Testamento os discípulos, os evangelistas e apóstolos eram todos comprometidos com a missão de pregar a mensagem de salvação que há em Jesus Cristo. Os apóstolos eram também evangelistas e esperavam a mesma coisa dos seus colaboradores (1Tm 4:5; At 21:8).
Em lugar algum das Escrituras se afirma que somente aqueles que têm o cargo de evangelista ou o dom espiritual do evangelismo devam esforçar-se para ganhar almas para o Senhor. Todo dom do Espírito conduz a essa abençoada atividade, direta ou indiretamente.
Todo aquele que recebe o Espírito Santo e nasce de novo é chamado a ser testemunha de Jesus Cristo e deve evangelizar, portanto ninguém precisa de um dom espiritual específico para fazer a sua parte na grande comissão. “Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como um missionário. Assim que vem a conhecer o Salvador, deseja pôr os outros em contato com Ele” . Assim, se evangelização fosse um dom espiritual, seria o dom universal de evangelismo, ou seja, todos os cristãos o teriam.
A realidade é que cada pessoa pode fazer sua parte na grande obra de evangelizar o mundo dando as cores de seus dons a essa tarefa. Ninguém é obrigado a evangelizar do mesmo modo que o outro. Nossos dons espirituais permitirão que utilizemos os métodos mais adequados à capacitação que recebemos do Espírito Santo.
Uns evangelizarão com o dom da amizade fazendo amigos para Cristo, outros com o dom da hospitalidade ou da ajuda conquistarão vidas para o reino de Deus, já outros com a pregação e o ensino encaminharão pessoas para o conhecimento a verdade que liberta. Cada um com o seu dom poderá fazer uma parte na grande tarefa evangelística e assim abreviar a volta de Jesus.
As ações da Igreja no sentido de alcançar, sensibilizar e comprometer cada membro na missão para cumprir sua responsabilidade corporativa da pregação do evangelho vem afunilando em direção ao membro individual. Esta verticalização tem sido notada através dos anos nas ênfases que a igreja tem dando a:
 Grandes eventos (campais): foco em multidões;
 Evangelismo público: foco em grandes grupos;
 Pequenos grupos: foco em grupos pequenos;
 Classes bíblicas: foco em poucas pessoas;
 Duplas missionárias: foco em dois membros;
 Dons espirituais do indivíduo: foco em cada membro.
A beleza de tudo isso está no fato de que estas estratégias não são conflitantes, elas podem conviver bem e apoiarem-se mutuamente. Em especial, os dons espirituais e os ministérios dos indivíduos podem oferecer suporte para todas as outras estratégias citadas.
Neste sentido, três eficazes ferramentas para mobilização dos membros na direção do cumprimento da missão evangelística estão relacionadas com os ministérios organizados pelos dons espirituais, são elas: pequenos grupos, discipulado e equipes ministeriais.

Dons espirituais no ambiente dos pequenos grupos. No convívio de um pequeno grupo (PG) os membros se sentirão mais estimulados a manifestar seus dons espirituais, embora não seja apenas no encontro do PG propriamente dito que os dons encontrarão expressividade.
Os pequenos grupos constituem uma oportunidade ideal para que os membros estudem o tema dos dons e dos ministérios a eles relacionados, discutam acerca de sua atuação, encontrem parceiros ministeriais, se organizem para uma ação coordenada e até experimentem o exercício de alguns dons.
Uma estratégia que garantirá excepcionais resultados será formar pequenos grupos a partir de equipes ministeriais. Depois da implantação de ministérios orientados pelos dons e da formação de equipes de ministérios, os membros destas equipes poderiam ser estimulados a formarem grupos pequenos a partir de sua afinidade ministerial e não relacional apenas. Assim teríamos mais um, e provavelmente o mais adequado, critério para a formação de pequenos grupos na igreja: a afinidade funcional dos membros com base em seus dons espirituais.
“Que os Pequenos Grupos caracterizem o estilo de vida da Igreja e funcionem como a base para a comunidade relacional, crescimento espiritual e cumprimento integral da missão, de acordo com os dons”.

Dons espirituais e discipulado. Deus equipa os santos com os dons espirituais, a igreja os equipa com discipulado.
O conceito evangélico de discipulado do novo converso enfatiza a sua fase e status de aprendiz dos ensinos da igreja mais do que o seu compromisso de buscar preparo adequado para cumprir a comissão evangélica de Cristo. O equilíbrio entre esses dois aspectos é o enfoque que gostaríamos de ver presente na igreja adventista do sétimo dia.
Todo programa de discipulado que pretende colocar os membros novos e antigos numa experiência de produtividade, do ponto de vista dos interesses do reino de Deus, precisará trabalhar em algum de seus estágios com a descoberta dos dons espirituais e o desenvolvimento de ministérios relacionados com eles.
Discipular sem lidar com os dons do membro seria como ensinar alguém a pintar sem nunca colocar um pincel em suas mãos. Como ferramentas para o desenvolvimento de ministérios, os dons espirituais do discipulando facilitarão o trabalho do discipulador. Este poderá acertar no alvo sabendo onde e a que experiências expor o discípulo para favorecer ao seu aprendizado e crescimento.
Falando acerca do sucesso da igreja primitiva, Russell Burrill declara que “os novos crentes entravam para a igreja, descobriam seus dons e imediatamente eram colocados no ministério. Por isso a igreja cresceu tão rapidamente”. Todo novo membro deve ser estimulado, apoiado e orientado a descobrir seus dons e se inserir numa equipe de ministério que possa explorar suas capacitações.
Burrill vê o batismo não apenas como cerimônia de purificação do pecado, mas também de ordenação para o ministério. Ele afirma que nas igrejas onde é dada a devida ênfase ao aspecto de entronização ao ministério pelo batismo “os novos conversos entram na igreja com o desejo de descobrir o seu lugar no ministério na congregação local. Em consequência, sentem-se entusiasmados com a possibilidade de se unirem a uma classe de dons espirituais. Entram na igreja com a expectativa de deverem envolver-se no ministério”.
Discipular é o trabalho de tornar um membro engajado, produtivo e capaz de gerar outros membros também engajados e produtivos. Esse ciclo não acontecerá satisfatoriamente a menos que contemple os dons espirituais que foram disponibilizados pelo Espírito Santo aos membros.
Jesus fez Seu trabalho de discipulado e deixou para nós um exemplo de atenção focada nas necessidades e características das pessoas. Por isso, Ele se dedicou a poucos indivíduos, para dar-lhes o melhor de Si mesmo e formar os Seus melhores representantes.
“A obra de Cristo compôs-se em grande parte de conversas individuais. Ele tinha em grande apreço o auditório constituído de uma única alma. Daquela alma, saía para milhares o conhecimento recebido”.

Equipes de ministérios esteio da missão da igreja. Equipe ministerial é um grupo de membros unidos pela afinidade dos dons espirituais, motivados pelos mesmos objetivos e focados na obtenção dos mesmos resultados. Multiplicar equipes de ministério facilitará a atuação dos membros e a produtividade da igreja.
Mesmo atuando sobre a estrutura de departamentos precisamos fazer uso do conceito de equipes de ministérios. Nelas o comprometimento é mais evidente, os relacionamentos são mais estreitos e “uma equipe multiplica a probabilidade de realizar nossos sonhos com eficácia e alegria. Em equipe somos amparados, fortalecidos, encorajados e mais produtivos”.
Com o correto conceito de equipes de ministérios trabalharemos com a afinidade relacional para fortalecer a idéia da afinidade ministerial. Neste paradigma a soberania do Espírito define com quem cada um deve formar uma equipe e trabalhar para Deus.
O programa de implantação de MOD revelará, entre outras coisas, que existem alguns membros na mesma igreja que possuem dons idênticos ou afins. Estes membros formarão equipes de ministérios que, uma vez organizadas, poderão fazer um bonito trabalho usando conjuntamente seus dons. O mais interessante nisso é que podemos ter a certeza de que foi o Espírito Santo que, ao distribuir os dons em sua igreja, formou estas equipes. Elas não surgiram por imposição, por capricho ou por decreto. Estarão lá porque Deus as colocará com um propósito.
Trabalhar pela identificação dessas equipes, dar apoio à sua formação e capacitar os membros envolvidos para o desempenho de seus ministérios será a prioridade do líder de igreja que quer vivenciar um ambiente enriquecido com “múltiplas equipes de ministério e estruturas que facilitam a participação dos membros”.
Essa poderia ser uma das prioridades da liderança da igreja: formar equipes ministeriais compostas por membros que encontraram seu dom e lugar no corpo de Cristo. Isso nos ajudaria a selecionar “naturalmente’ aquilo que deveria ocupar a agenda da igreja local em termos de programas, eventos e mobilização para fortalecer as estruturas que temos.
O autor de Uma Igreja com Propósitos advertiu: “Se você quer que sua igreja venha a impressionar o mundo, precisa dar importância ao que é realmente essencial. […] A maioria das igrejas tenta fazer coisas demais. Isto é uma das barreiras que são ignoradas ao se construir uma igreja sadia. Nós simplesmente cansamos o povo.”
A principal meta de uma estrutura montada sobre equipes ministeriais é o cumprimento da grande comissão, o fortalecimento dos ministérios da igreja e o engajamento das pessoas envolvidas evitando assim que elas se enfraqueçam espiritualmente e se afastem do convívio e do trabalho da igreja.

Considerações finais
A igreja militante, comprometida com o projeto de Deus de evangelizar o mundo, precisa da liderança de pastores e membros com a correta visão dos planos de Deus para ela e precisa ser orientada pelos dons. Sua relação com os ministérios orientados pelos dons será sentida num eficiente programa de formação de equipes ministeriais, discipulado e pequenos grupos. Você pode ser este líder chamado para um momento e uma tarefa tão especiais para a igreja.
O cumprimento da grande comissão implementado no coração da expressiva maioria da igreja não é apenas o sonho de líderes visionários, é o plano de Deus para nossos dias, cuja solução está em nossas mãos, revelada nas páginas das Escrituras.
Membros conhecedores de seus dons espirituais e atuando em harmonia com eles, pastores cumprindo suas funções sem fugirem do foco, equipes ministeriais operando em harmonia, pequenos grupos dinâmicos e um consistente programa de discipulado. Este é o sonho e esta pode ser a nossa realidade. Depende muito de você.

Edinaldo Juarez Silva
Graduado em Teologia
Mestre em Teologia Aplicada
D.Min. em Missiologia
Departamental de Mordomia Cristã – ANP/USB

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1Comment
  • EDNA ROSA PULVIRENTI
    Posted at 00:24h, 14 março Responder

    Gostaria de conhecer mais sobre a academia de dons,vi na tv nt e fiquei interessada no curso que começou no dia 8 de março e ouvi dizer que se pode fazer a distancia , gostaria de saber como faço para participar , aguardo resposta. desde já meu muito obrigada.

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